Livre Mercado, Margem, Rotatividade e o Papel do Governo

Quando se fala em economia, muitas explicações parecem complicadas porque tratam separadamente coisas que, na prática, fazem parte de um mesmo ciclo.

Produção, emprego, renda, consumo, preços, margem de lucro, arrecadação e investimento estão ligados.

E dois elementos são fundamentais para quem fabrica e para quem revende:

rotatividade e margem de lucro.

A empresa precisa vender. E precisa vender com margem suficiente para continuar existindo, investir, contratar, melhorar e crescer.

Rotatividade depende da demanda

Nenhuma empresa vive apenas de ter produtos disponíveis.

É necessário que exista quem queira comprar e, mais importante ainda, quem tenha condições de comprar.

Por isso, a rotatividade depende da relação entre oferta e demanda.

A indústria produz e gera empregos.

Os empregos geram renda.

A renda transforma pessoas em consumidores capazes de comprar.

Os consumidores geram demanda.

A demanda faz os produtos girarem.

E a rotatividade estimula nova produção.

Forma-se um ciclo:

produção → emprego → renda → consumo → demanda → rotatividade → nova produção.

O trabalhador não é apenas um custo para a empresa.

Ele também é consumidor.

O salário pago por uma empresa retorna à economia quando esse trabalhador compra alimentos, roupas, serviços, móveis, veículos e inúmeros outros produtos.

Quanto mais pessoas trabalhando e produzindo, maior tende a ser a capacidade de consumo da sociedade.

A margem depende do preço que o mercado aceita

Existe outro erro comum quando se fala em empresas.

Muitas pessoas imaginam que basta ao empresário calcular seus custos, acrescentar sua margem desejada e definir o preço.

Mas não é assim que o mercado funciona.

O empresário pode definir o preço que quiser.

O consumidor não é obrigado a pagar.

Existe um limite imposto pelo próprio mercado.

Se um produto semelhante é vendido por R$ 100, uma empresa dificilmente conseguirá cobrar R$ 150 apenas porque seus custos aumentaram.

Por isso, na prática:

a margem possível depende do preço que o mercado aceita.

Se os custos aumentam e o preço não pode subir na mesma proporção, quem absorve parte desse aumento é a margem.

Isso é particularmente importante quando falamos em impostos.

Quem realmente paga os impostos?

É comum ouvir a afirmação:

“O empresário não tem do que reclamar, porque quem paga os impostos é o consumidor.”

Essa afirmação é simplista.

Ela confunde quem recolhe o imposto com quem suporta economicamente o seu custo.

Se uma empresa paga determinado tributo, ela naturalmente tentará incorporá-lo ao preço do produto.

Mas ela só conseguirá fazer isso até onde o mercado permitir.

Se aumentar demais o preço, poderá perder vendas.

Portanto, parte do imposto pode ser repassada ao consumidor, mas outra parte pode ser absorvida pela margem da empresa.

E os efeitos podem ir além.

Uma empresa pressionada por custos pode:

reduzir investimentos;

contratar menos;

demitir;

pressionar fornecedores;

reduzir sua própria margem;

ou até encerrar determinadas atividades.

Portanto, a carga tributária pode atingir consumidores, empresas, trabalhadores, fornecedores e investidores ao mesmo tempo.

A empresa não é simplesmente um tubo por onde o imposto passa até chegar ao consumidor.

Ela está inserida em um mercado.

Margem maior não significa apenas lucro maior

Margem satisfatória proporciona liberdade econômica para a empresa.

Ela permite pagar salários melhores.

Permite investir.

Permite modernizar equipamentos.

Permite suportar períodos ruins.

Permite reduzir preços estrategicamente para aumentar a rotatividade.

Permite disputar profissionais melhores.

Isso não significa que toda empresa necessariamente fará essas coisas.

Significa que ela passa a ter condições para fazê-las.

E a concorrência frequentemente cria o incentivo.

Quando existem muitos fornecedores oferecendo produtos semelhantes e margens satisfatórias, alguém pode decidir:

“Vou ganhar um pouco menos por unidade para vender muito mais.”

Reduz o preço.

Aumenta a rotatividade.

Os concorrentes precisam reagir.

É assim que a concorrência pressiona os preços.

O mesmo acontece com o trabalho.

Se um empregado descobre que outra empresa paga mais para exercer a mesma função, ele naturalmente passa a considerar a mudança.

A empresa que deseja manter bons profissionais precisa reagir.

Assim, as empresas não competem apenas por consumidores.

Elas também competem por trabalhadores.

É isso que significa livre mercado

“Livre mercado” é uma expressão curta para representar um mecanismo muito mais complexo.

Significa liberdade de produzir, comprar, vender, investir, contratar, trabalhar e competir.

Nesse ambiente, preços, salários, margens e produção são continuamente pressionados pelas decisões de milhões de pessoas.

O consumidor escolhe onde comprar.

O trabalhador escolhe onde trabalhar.

O empresário escolhe onde investir.

O investidor escolhe onde colocar seus recursos.

E cada escolha influencia todas as demais.

O mercado, portanto, possui mecanismos próprios de regulação.

Isso não significa que seja perfeito.

Significa que concorrência, oferta, demanda e liberdade de escolha exercem continuamente forças de correção.

E qual deve ser o papel do governo?

O governo não produz riqueza.

A riqueza é produzida pelo trabalho das pessoas.

Sua base mais elementar está no trabalho sobre os recursos disponíveis na natureza e na terra.

A partir daí surgem agricultura, pecuária, mineração, indústria, comércio, serviços e todas as demais atividades econômicas.

O governo arrecada parte da riqueza produzida pela sociedade.

Portanto, seu papel fundamental é administrar corretamente os recursos provenientes do trabalho do povo.

E existem três pilares básicos nessa administração:

educação, saúde e infraestrutura.

Mas a ordem é importante.

Educação

Educação vem primeiro.

Uma sociedade educada forma professores, médicos, engenheiros, administradores, técnicos, cientistas, trabalhadores qualificados e empreendedores.

Educação aumenta a capacidade de pensar, organizar, produzir e inovar.

Saúde

A saúde preserva a capacidade humana formada pela educação.

Uma população instruída, mas sem condições adequadas de saúde, perde parte de sua capacidade produtiva e de desenvolvimento.

Infraestrutura

Infraestrutura vem como consequência da capacidade técnica e administrativa construída anteriormente.

Estradas, portos, energia, saneamento, telecomunicações e logística exigem conhecimento, planejamento, engenharia e boa administração.

Portanto, a sequência básica é:

boa administração → educação → saúde → infraestrutura.

A partir daí, o governo cria o alicerce para que a população trabalhe e produza.

O ciclo virtuoso

Quando esse alicerce existe, torna-se possível formar um ciclo econômico virtuoso:

educação → capacidade produtiva → produção → emprego → renda → consumo → demanda → rotatividade → margem → investimento → crescimento.

Quanto mais a economia cresce, maior também tende a ser a base de arrecadação do próprio governo.

Portanto:

economia maior → maior arrecadação.

Isso significa que a administração pública também se beneficia quando empresas e trabalhadores prosperam.

O governo não deveria enxergar a atividade econômica apenas como algo de onde retirar recursos.

Deveria enxergá-la como a fonte que precisa permanecer saudável para que toda a sociedade, inclusive o próprio Estado, possa prosperar.

Conclusão

Afinal, quem paga os impostos?

Depois de compreender esse ciclo, podemos voltar à afirmação que motivou esta reflexão:

“O empresário não tem do que reclamar dos impostos, porque quem paga os impostos é o povo.”

Não.

Ou, pelo menos, não dessa maneira simplista.

Quem paga os impostos é todo mundo.

Paga o consumidor, quando uma parcela do tributo consegue ser incorporada ao preço.

Paga o empresário, quando o mercado não aceita esse repasse e o tributo reduz sua margem.

Paga o trabalhador, quando o aumento dos custos reduz contratações, investimentos, salários possíveis ou oportunidades de emprego.

Paga o fornecedor, quando empresas pressionadas por custos precisam renegociar preços.

Paga o investidor, quando o retorno sobre o capital diminui.

E paga até aquele que trabalha na própria administração pública, porque também é consumidor e participa do mesmo sistema econômico.

Há apenas uma diferença: os trabalhadores do Estado também fazem parte do custo da administração pública e, portanto, da necessidade de arrecadação necessária para sustentá-la.

Isso não significa que servidores públicos sejam um problema. Educação, saúde, administração e inúmeras outras funções públicas dependem deles.

A questão é outra:

quanto mais cara e menos eficiente for a máquina pública, maior será a quantidade de riqueza que precisará ser retirada da sociedade para sustentá-la.

E essa riqueza não foi produzida pelo governo.

Foi produzida pelo trabalho do povo.

O governo arrecada uma parcela dela e tem a responsabilidade de administrá-la adequadamente, devolvendo à sociedade aquilo que constitui o alicerce para que ela continue produzindo:

educação, saúde e infraestrutura.

Educação primeiro, porque forma a capacidade humana.

Saúde, porque preserva essa capacidade.

Infraestrutura, porque é construída como consequência do conhecimento, da organização, da capacidade técnica e dos recursos produzidos por uma sociedade desenvolvida.

Quando essa estrutura funciona, estabelece-se um ciclo virtuoso:

educação → produção → emprego → renda → consumo → demanda → rotatividade → margem → investimento → crescimento → maior arrecadação.

O próprio governo passa a arrecadar mais porque a economia cresceu.

É muito diferente de tentar arrecadar mais simplesmente aumentando o peso sobre quem produz.

E aqui está talvez o maior erro de quem afirma que impostos cobrados das empresas são simplesmente “pagos pelo consumidor”:

o empresário não controla o preço de mercado.

Ele pode tentar repassar o imposto.

Quem decide se esse repasse será aceito é o mercado.

Se o consumidor não aceitar o novo preço, a venda diminui.

Se a empresa mantiver o preço, sua margem diminui.

Se a margem diminuir demais, investimentos desaparecem.

Depois desaparecem contratações.

Depois empresas.

E, quando empresas desaparecem, também desaparecem empregos, renda, consumo e arrecadação.

Economia não funciona em compartimentos isolados.

Empresário não está de um lado, trabalhador de outro, consumidor em outro e governo em outro.

Todos estão dentro do mesmo ciclo.

O empresário também é consumidor.

O trabalhador também é consumidor.

O servidor público também é consumidor.

E até aquele que vive exclusivamente de recursos públicos consome bens e serviços produzidos pela atividade econômica.

Portanto, quando alguém pergunta:

Quem realmente paga os impostos?

A resposta é:

Todos.

Não necessariamente na mesma proporção.

Não necessariamente da mesma maneira.

Mas todos suportam alguma parcela de seu custo econômico.

Por isso, dizer que “o empresário não paga impostos porque os repassa ao consumidor” não é uma explicação econômica.

É ignorar margem, preço de mercado, concorrência, investimento, emprego, salário, oferta, demanda e incidência tributária para reduzir todo um sistema econômico a uma frase de efeito.

E uma frase de efeito não deixa de estar errada porque recebeu centenas de milhares de visualizações.

Economia continua obedecendo às suas relações de causa e consequência, independentemente da popularidade de quem fala sobre ela.